Achei que fosse impossível encontrar uma pessoa normal, que vivesse, perfeitamente, sem falta nenhuma de ter um celular. Encontrei uma pessoa que, por sinal, eu admiro só pelo fato de não ter um: o jovem jornalista
Bruno Ribeiro, do
Correio Popular, de Campinas.
Quando eu soube que o Bruno conseguia trabalhar e viver sem um celular, virei sua fã, pensei, como assim o cara consegue realizar essa missão impossível?
Nutro uma relação de amor e ódio com o celular, e-mails e parafernálias afins. Você já acordou com a sensação de querer se isolar do mundo, a ponto de não querer entrar no Orkut, de não ter até mesmo que, entrar aqui e escrever qualquer linha mal escrita, tosca e vagabunda, sem nenhum sentido? Ah, então saibam que hoje estou assim.
Os meus amigos andam reclamando da minha falta de presença no MSN. "Onde você está? O que aconteceu? Você está viva?". A verdade é que, querendo ou não, esse programinha vicioso, depois das passagens de viagem e dos telefonemas, é a maneira mais fácil de eu manter contato com meus amigos de longe. E considerando que eu já morei em tantos lugares e as pessoas mais queridas da minha vida estão todas longe de mim, é como se eu tivesse dito, gente, preciso de umas férias de vocês. Estou chatinha, sem paciência para falar (e olha que eu falo, hein) e preciso urgentemente ir para alguma mata, ilha, viver só do silêncio e do meu corpo. Estou offline por pura vontade.
Sinto-me totalmente controlada e controladora diante de todas essas coisinhas que me deixam agitada. Em um primeiro momento vem a sensação de controle. Você liga para quem quer, você atende quem deseja, você escreve e responde para quem quiser. Depois cai a ficha e vem a sensação de que é controlada. É o seu editor que te liga e você morre de medo dele reclamar do seu texto ou te mandar trabalhar, quando você está ali justamente, dormindo, abraçadinha com alguém. Você pensa, ah, é assim, vai lá sua anta, quem mandou não virar médica? Pelo menos, estaria ganhando melhor.
Depois acontecem outras coisas, como uma fonte incomodada com o seu texto ligar para você ou te mandar um e-mail ofensivo. Você conta até dez, recompõe-se e agradece por ter a cautela de gravar e fazer a devida decupagem, arquivar tudo, mesmo que isso exija mais do seu tempo. Depois você briga com alguém que trabalha com você e pede uma explicação. Como assim, vocês beberam? Eu tenho que ficar à disposição 24h, mas vocês passam meu telefone particular sem me consultar. Boooooonito.
Estar conectada altera até mesmo os seus sentidos. Você pensa que escutou o telefone tocar, acha que o celular vibrou, mas tudo não passa de sintomas, sintomas de que você já foi contaminada e dominada por todos os aparatos eletrônicos.
No Orkut, por exemplo, exigem de nós a tal mínima educação. "Ah, fulana me adicionou, mas eu não gosto dela. Vou ter que adicioná-la já que ela me achou". "Ai e agora, aquele menino que eu beijei me achou e vai ficar escrevendo, eu não quero. O que faço?". "Putz, meu ex-namorado me achou e enviou convite para ser meu amigo. Agora vou ter que adicioná-lo".
Diante desse raciocínio podem me taxar da pessoa mais mal educada pois não faço questão de ser simpática. Pelo menos ali, tenho o direito, sim, de agir como se estivesse em uma seita, de adicionar quem somente quero, gosto e ponto final.
Outra coisa que me irrita é a tal "googada" que dão em você. De repente você está num novo ambiente, tudo é novidade, ninguém te conhece. Mas eis que existe o
Google. E quando você percebe, as pessoas já te conhecem até demais. Normalmente isso acontece quando você começa a freqüentar um novo grupo de trabalho e os seus colegas querem saber de onde você surgiu, se você merece estar ali entre eles, se você tem alguma coisa boa para contar. Se ajuda, saibam que meu passado me condena. Sou louca, doida, perigosa.
As tecnologias atrapalham até mesmo minha relação com os outros. Já escrevi aqui que é muito mais fácil eu pedir o telefone de alguém a eu oferecer o meu. Porque eu sei, sei como é foda você esperar um telefonema e ele não acontecer. E não quero correr o risco de dar o número para uma pessoa que pode virar um chato, daquele que te liga toda hora e não se toca que você não está afim. Odeio inventar desculpas. E odeio ter que falar, cara, você não se tocou que eu não vou sair com você? Mas odeio mais ainda, olhar para o meu celular e ver que todo mundo me ligou, menos quem eu queria que ligasse.
Até mesmo o
blog me dá dor de cabeça. Já teve um menino que achava que eu passava dos limites. "Você fala palavrão, você age como se fizesse todo homem de tonto, você prega o feminismo, tenho medo do que você pode escrever". Daí não agüentei. Ele queria me censurar. Era muita pretensão achar que me inspirava para alguma coisa. Eu parei de sair com ele, que não entendeu nada, ficou uma semana me chamando para isso e aquilo, perguntava o que tinha feito de errado, o que não tinha feito. Aí eu tive que falar, olha fulano, você é muito legal, mas não dá para sair com uma pessoa neurótica. Você já leu o meu perfil? Você sabe diferenciar o que sou eu e o que não é? Você acha que eu te trato como homem-objeto? Porque pelo amor de Deus, você conseguiu estragar tudo. Agora me deixa em paz que eu vou escrever, o que eu quiser e vou sempre respeitar quem estiver comigo.
Tenho uma amiga que tem três celulares. Ela é produtora, trabalha com cinema, não sei bem ao certo o que ela faz, mas quando a gente se encontra eu passo mal só de ver os celulares tocar. Um é pessoal, dois são do trabalho. Quando eles tocam, ela fica em transe. E eu entro também. "Atenda, comporte-se como se fosse minha assistente. Vai atende". Aí eu atendo, invento uma desculpa de merda, ela olha para mim e diz, "não agüento mais".
Eu também não aguënto.
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